A uretroplastia é a reconstrução cirúrgica da uretra, e é o único tratamento que remove ou substitui o segmento doente em vez de apenas cortar a cicatriz. Nas estenoses longas ou que já recidivaram, ela é a opção com a menor taxa de recidiva — 19% contra 39% da uretrotomia interna, segundo a atualização de 2023 da diretriz americana.
Quando o estreitamento é longo demais para simplesmente retirar e unir as pontas, a uretra é ampliada com um enxerto. O material preferido no mundo inteiro é a mucosa da bochecha: fina, resistente, bem vascularizada, acostumada a ambiente úmido e retirada por dentro da boca, sem cicatriz visível.
O que raramente se explica ao paciente é que existem técnicas diferentes para colocar esse enxerto, e que a escolha entre elas muda o tempo de cirurgia, o sangramento e o risco de complicação. Esta página explica as duas que realizo — Kulkarni e Asopa — e em que situação cada uma entra.
O que é a uretroplastia
É a reconstrução aberta da uretra, feita por via perineal, que trata a doença em vez de apenas alargar o canal. A estenose não é um anel apertado: é fibrose que substitui a parede normal e que se estende ao tecido esponjoso ao redor. Cortar essa cicatriz por dentro não a remove — e ela volta a fechar.
Existem duas famílias de uretroplastia. Na anastomose término-terminal, o segmento doente é retirado e as pontas saudáveis são costuradas — funciona em estenoses bulbares curtas. Na uretroplastia de aumento, o canal é ampliado com um enxerto, e é dela que trata o restante desta página.
Quando é indicada
Em estenoses longas, em estenoses que já recidivaram após tratamento endoscópico, e em qualquer caso em que o paciente não queira repetir um procedimento que já falhou. A diretriz americana posiciona a uretroplastia como opção de primeira linha, e não apenas de resgate.
- estenose bulbar maior que 2 cm;
- estenose que recidivou após dilatação ou uretrotomia interna;
- estenose de uretra peniana, onde a uretrotomia tem resultado ainda pior;
- estenose panuretral, que acomete toda a extensão do canal;
- líquen escleroso, em que enxertos de pele genital tendem a falhar porque a própria doença compromete esse tecido;
- estenose após cirurgia da próstata, sondagem prolongada ou outro procedimento pela uretra;
- sequela de fratura de bacia com lesão uretral.
A causa importa para a decisão. Em estudo multicêntrico com 899 pacientes operados em seis centros brasileiros de referência, 43,4% das estenoses tiveram origem iatrogênica — e dentro desse grupo, a instrumentação da uretra, com destaque para a sondagem, foi o mecanismo mais frequente. Acima dos 60 anos, a origem iatrogênica respondeu por 68% dos casos.
Isso significa que, no paciente mais velho com jato fraco, quase sempre existe um procedimento ou uma sondagem na história — e vale lembrar que o estreitamento da uretra está entre as complicações possíveis de qualquer cirurgia endoscópica da próstata, inclusive da enucleação prostática bipolar.
Por que repetir uretrotomia não resolve
Porque a uretrotomia corta a cicatriz, mas não a remove — e o corte cicatriza formando nova fibrose. Quando a estenose volta depois da primeira uretrotomia, a chance de que a segunda resolva de forma duradoura é muito baixa. E cada repetição tende a alongar o segmento doente, tornando a reconstrução futura mais difícil.
Pacientes livres de estenose após uretrotomia interna
Tempo mediano até a recidiva: 7 meses após a primeira e 9 meses após a segunda. Série retrospectiva de centro único, com critério estrito de sucesso e seguimento prolongado — números mais baixos do que os habitualmente citados em estudos de seguimento curto. Fonte: Santucci & Eisenberg, J Urol 2010.
Há também um custo em adiar. Um estudo mostrou que a reconstrução tardia de estenoses bulbares se associa a mais intervenções prévias, estenoses mais longas e reparos mais complexos. O tempo passado no ciclo endoscópico não é neutro.
Nada disso significa que a uretrotomia não tenha lugar: ela é opção legítima em estenose bulbar única, curta e ainda não tratada. O problema está na repetição depois da falha.
A pergunta que mais aparece na consulta não é sobre a cirurgia. É “por que ninguém me falou disso antes?”. Muitos pacientes chegam depois de três, quatro ou cinco procedimentos endoscópicos, com uma estenose mais longa do que a inicial, e descobrem naquele momento que existia uma alternativa desde o começo.
Por que mucosa oral
Porque é o tecido que melhor se comporta dentro da uretra, e porque sua retirada não deixa cicatriz visível. A mucosa da bochecha é fina, tem uma camada própria rica em vasos que favorece a pega do enxerto, é acostumada a ambiente úmido e resiste bem ao contato com a urina.
A revisão sistemática que comparou materiais de enxerto mostrou resultado significativamente melhor da mucosa oral em relação a outros tecidos. E há um cenário em que ela deixa de ser preferência para virar necessidade: no líquen escleroso, enxertos de pele genital tendem a falhar porque a doença acomete justamente essa pele.
O local de retirada na bochecha costuma ser deixado aberto para cicatrizar sozinho. O desconforto é maior nos primeiros dias, com dificuldade para abrir bem a boca e alteração temporária da sensibilidade local, e melhora progressivamente.
Kulkarni ou Asopa
As duas colocam o enxerto na face dorsal da uretra — a diferença está em quanto a uretra precisa ser descolada para isso. Na técnica de Kulkarni, a uretra é liberada de um lado só, preservando o suprimento de sangue e os nervos do lado oposto. Na técnica de Asopa, a uretra não é descolada: ela é aberta por baixo e o enxerto é encaixado por dentro.
Ambas nasceram de um mesmo princípio: quanto menos a uretra é mobilizada, melhor sua vascularização permanece — e vascularização é o que determina se o enxerto pega.
| Kulkarni | Asopa | |
|---|---|---|
| Nome técnico | Onlay dorsolateral com dissecção de um lado só | Inlay dorsal por uretrotomia sagital ventral |
| Como o enxerto entra | Aplicado sobre a face dorsolateral da uretra, que é liberada apenas de um lado | Encaixado por dentro, entre as bordas da placa uretral aberta, sem descolar a uretra |
| O que preserva | Vasos e nervos do lado não dissecado, o músculo bulboesponjoso e o tendão central do períneo | Toda a vascularização, já que não há mobilização |
| Largura do enxerto | Permite enxerto mais largo, gerando lúmen maior | Enxerto necessariamente mais estreito, limitado pela abertura |
| Melhor indicação | Estenoses longas e panuretrais, inclusive associadas a líquen escleroso | Estenoses de uretra peniana e casos em que preservar ao máximo a irrigação é prioridade |
| Resultados publicados | Sucesso inicial de 92% na série original; 87,1% em seguimento médio de cerca de 5 anos | Sucesso de até 87% nas séries publicadas |
Um estudo comparou a técnica de Kulkarni com a técnica dorsal clássica em estenoses anteriores longas. A de Kulkarni apresentou menor tempo cirúrgico, menor sangramento, internação mais curta e menos complicações no período perioperatório — 16,1% contra 37,8%. O sucesso em seguimento de cerca de cinco anos foi de 87,1% contra 70,3%.
Isso não torna uma técnica superior em todo caso. A escolha depende de onde está a estenose, de quanto tecido saudável existe, da presença de líquen escleroso e do que se encontra no momento da cirurgia.
Essa decisão não é tomada no consultório. É tomada na mesa, depois de abrir e ver a extensão real da fibrose — que quase sempre é maior do que a uretrografia sugeria.
Por isso a conversa antes da cirurgia inclui as duas possibilidades. O paciente precisa saber que o plano pode mudar durante o procedimento, e por quê.
A avaliação antes da cirurgia
Três informações decidem a conduta: onde está a estenose, qual o comprimento dela e quantas vezes ela já foi tratada. Nenhum exame isolado fornece as três — a combinação de imagem contrastada com endoscopia é o padrão.
- Consulta e história dirigida. Tempo de evolução, procedimentos prévios, sondagens, traumas, infecções e quantos tratamentos já foram feitos. O número de intervenções anteriores muda o prognóstico e a estratégia cirúrgica. Levar um diário miccional preenchido torna a queixa mensurável.
- Exame físico. Inspeção do meato, palpação da uretra peniana em busca de endurecimento, avaliação do períneo e busca ativa de sinais cutâneos de líquen escleroso. Exame da cavidade oral, já que é de lá que virá o enxerto.
- Urofluxometria e resíduo pós-miccional. Objetivam a obstrução, mas não diferenciam estenose de aumento prostático.
- Uretrocistografia retrógrada e miccional. Preenche a uretra com contraste nas duas direções. É o exame que melhor define comprimento e localização, inclusive quando o estreitamento é quase completo.
- Uretrocistoscopia. Visualiza diretamente a mucosa, avalia a bexiga e permite biópsia quando há suspeita de líquen escleroso.
- Estudo urodinâmico em casos selecionados. O estudo urodinâmico não é rotina, mas é útil quando anos de obstrução levantam dúvida sobre a capacidade contrátil da bexiga — informação que muda a expectativa de resultado da cirurgia.
Já fez uretrotomia e o jato voltou a piorar?
Esse é o cenário em que repetir o mesmo procedimento traz o menor benefício. A avaliação com imagem e endoscopia define se há indicação de reconstrução.
Falar sobre a avaliaçãoComo é a cirurgia
É feita sob anestesia, em dois tempos dentro do mesmo procedimento: a retirada do enxerto na boca e a reconstrução da uretra pelo períneo. Não há corte abdominal nem cicatriz na face.
- Retirada do enxerto. A mucosa é retirada da face interna da bochecha, em tamanho calculado para o comprimento da estenose. A área doadora costuma ser deixada aberta para cicatrizar sozinha.
- Preparo do enxerto. O tecido é limpo da gordura e da submucosa e moldado na largura necessária. Esse preparo influencia diretamente a pega.
- Acesso perineal e exposição da uretra. Incisão no períneo, entre a bolsa escrotal e o ânus. A extensão real da fibrose é avaliada aqui.
- Escolha definitiva da técnica. Com a uretra exposta, define-se entre o onlay dorsolateral de um lado só e o inlay dorsal sem mobilização.
- Fixação do enxerto. O enxerto é suturado e fixado ao leito vascularizado por pontos que o mantêm aderido. É isso que garante a nutrição nos primeiros dias.
- Fechamento e sonda. A uretra é reconstruída sobre uma sonda, que permanece durante a cicatrização.
Experiência e volume importam
Reconstrução uretral tem curva de aprendizado documentada na literatura. Casos complexos — estenose panuretral, líquen escleroso extenso, falha de reconstrução prévia ou lesão após fratura de bacia — se beneficiam de centros com alto volume nesse tipo específico de cirurgia. Encaminhar nessas situações faz parte da conduta correta.
Como é a recuperação
A sonda permanece por algumas semanas, e só é retirada depois de um exame contrastado que confirme a cicatrização sem vazamento. O desconforto maior nos primeiros dias costuma vir da boca, não do períneo.
- dificuldade para abrir bem a boca e desconforto ao mastigar nos primeiros dias, com dieta líquida ou pastosa no início;
- alteração temporária da sensibilidade na área doadora;
- inchaço e roxidão na região do períneo, que cedem progressivamente;
- sonda vesical por período definido pela técnica e pela extensão da reconstrução;
- uretrografia miccional antes da retirada da sonda;
- restrição de esforço físico e de relação sexual durante a cicatrização;
- acompanhamento com urofluxometria por anos, não por meses.
Riscos e limitações
A uretroplastia tem a melhor taxa de sucesso entre as opções, mas não é garantia de cura permanente. As taxas em torno de 85% frequentemente citadas vêm de seguimentos intermediários, de cerca de cinco anos. Uma metanálise publicada no periódico da Sociedade Brasileira de Urologia mostrou que, em séries com seguimento acima de 100 meses, o sucesso continua caindo.
Esse dado quase nunca aparece na conversa pré-operatória, e deveria. O paciente precisa saber que a chance de resolução é alta, que é claramente superior à do tratamento endoscópico, e que ainda assim existe possibilidade de recidiva anos depois — o que torna o acompanhamento de longo prazo parte do tratamento, não um detalhe.
- Recidiva da estenose, com necessidade de novo procedimento;
- Infecção da ferida operatória ou complicação na pega do enxerto;
- Fístula uretral, mais associada às técnicas ventrais do que às dorsais;
- Gotejamento pós-miccional, que pode persistir;
- Alterações da função sexual e da sensibilidade peniana, geralmente transitórias — a diretriz americana incluiu essa questão especificamente na revisão de 2023;
- Alterações da ejaculação;
- Desconforto e alteração de sensibilidade na área doadora da boca;
- Necessidade de nova cirurgia em casos complexos, inclusive em etapas.
Existem também situações em que a reconstrução não é o melhor caminho: comorbidades que contraindicam cirurgia de maior porte, doença ativa na região, ou casos em que a uretrostomia perineal oferece resultado funcional mais previsível.
Perguntas frequentes
A uretroplastia tem cura definitiva?
Tem alta chance de resolução duradoura, com recidiva de 19% contra 39% da uretrotomia. Mas não é correto falar em cura garantida: séries com seguimento acima de oito anos mostram queda progressiva das taxas de sucesso, o que torna o acompanhamento de longo prazo parte do tratamento.
Por que o enxerto vem da boca e não da pele?
A mucosa da bochecha é fina, bem vascularizada, acostumada a ambiente úmido e resiste melhor ao contato com a urina. Não deixa cicatriz visível. No líquen escleroso ela deixa de ser preferência e vira necessidade, porque a doença compromete a pele genital.
Vai ficar cicatriz no rosto?
Não. O enxerto é retirado pela face interna da bochecha, por dentro da boca. Não há incisão externa na face. A área doadora costuma ser deixada aberta para cicatrizar sozinha, com desconforto nos primeiros dias.
Quanto tempo fico com sonda?
Algumas semanas, com o período definido pela técnica utilizada e pela extensão da reconstrução. A retirada só acontece depois de um exame contrastado que confirme a cicatrização sem vazamento, e não em data fixa marcada de antemão.
A cirurgia afeta a ereção?
Alterações da função sexual podem ocorrer no pós-operatório e, na maior parte dos casos descritos, são transitórias. O tema foi incluído como questão específica na revisão de 2023 da diretriz americana, justamente por ser preocupação frequente. Deve ser discutido antes da cirurgia.
Qual a diferença entre Kulkarni e Asopa?
Na técnica de Kulkarni a uretra é liberada de um lado só e o enxerto é aplicado sobre a face dorsolateral, preservando a irrigação do lado oposto. Na de Asopa a uretra não é descolada: ela é aberta por baixo e o enxerto é encaixado por dentro. A escolha depende da localização e da extensão da estenose.
Posso tratar sem cirurgia?
Não existe medicamento que desfaça a fibrose. Dilatação e uretrotomia interna são menos invasivas, mas apresentam alta recidiva, e repeti-las após falha tende a alongar a estenose. Estenoses amplas e sem sintomas, descobertas por acaso, podem ser apenas acompanhadas.
Qual urologista faz uretroplastia?
Urologista com formação em cirurgia reconstrutiva do trato urinário. Não é procedimento de rotina em toda prática urológica — a literatura documenta curva de aprendizado específica. Vale perguntar ao seu médico com que frequência ele realiza e quais técnicas domina.
A conduta depende de três informações
Onde está a estenose, qual o comprimento e quantas vezes já foi tratada. A avaliação define se há indicação de reconstrução — e qual técnica se aplica ao seu caso.
Agendar avaliaçãoReferências
- Wessells H, Morey A, Vanni A, Rahimi L, Souter L. Urethral Stricture Disease Guideline Amendment (2023). J Urol. 2023;210(1):64-71. American Urological Association
- Kulkarni S, Barbagli G, Sansalone S, Lazzeri M. One-sided anterior urethroplasty: a new dorsal onlay graft technique. BJU Int. 2009;104(8):1150-1155.
- Kartal et al. Comparison between dorsal onlay and one-sided dorsolateral onlay buccal mucosal graft urethroplasty in long anterior urethral strictures. Int J Urol. 2020.
- Ito WE, Rodrigues MA, Almeida SHM. One-sided anterior urethroplasty for panurethral stricture: step-by-step. Int Braz J Urol. 2019. DOI
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- Lumen N, Campos-Juanatey F, Dimitropoulos K, et al. EAU Guidelines on Urethral Strictures. European Association of Urology, 2025. uroweb.org
Revisado por Dr. Thiago Tagliari — CRM-SP 152167 | RQE 72006 · Última atualização: outubro de 2026
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa e não substitui consulta médica individualizada. Diagnósticos e tratamentos devem ser definidos após avaliação profissional adequada.
