Se a sua testosterona baixa veio junto com a barriga, a caneta de emagrecer pode fazer o hormônio subir. Só que quem sobe a testosterona não é a caneta: é a gordura que sai. Repor o hormônio sobe mais o número, mas pode zerar o espermograma. Se você quer ter filho, a ordem das decisões muda.
Resumo rápido
- No homem acima do peso, quem sobe a testosterona é a gordura que sai. A caneta ajuda a emagrecer; ela não é hormônio.
- Em homem saudável e no peso, os estudos não mostram esse efeito.
- Repor testosterona sobe mais o número, mas desliga o comando do cérebro e derruba a contagem de espermatozoides.
- Não dá pra afirmar que a caneta piora a ereção. Nem que melhora, por conta própria.
- A caneta não é tratamento de testosterona baixa nem de fertilidade.
Por que a testosterona baixa aparece no homem acima do peso?
O seu testículo não quebrou.
Cansaço às três da tarde. O desejo lá embaixo. A barriga que não sai. E sempre aparece alguém dizendo: começa testosterona que resolve.
O nome técnico é hipogonadismo. Traduzindo: o testículo tá fabricando pouca testosterona. É a vontade que não aparece nem no fim de semana. Faz quanto tempo que você tá assim?
A testosterona é fabricada no testículo, mas quem manda fabricar é o cérebro, que envia um recado pelo sangue. A gordura da barriga atrapalha esse recado: transforma parte da testosterona em estrogênio e piora a resposta do corpo à insulina. A explicação mais aceita é que esse estrogênio a mais freia o cérebro. Ele manda menos recado, e o testículo fabrica menos (EAU, 2026).

Se o seu caso é o contrário, exame alto e desejo baixo, a conversa é outra: veja o artigo sobre testosterona alta e libido baixa.
Não é o testículo. É o recado que chega fraco.
Emagrecer com a caneta aumenta a testosterona?
Não é a caneta que sobe a sua testosterona.
O nome técnico da classe é agonista de GLP-1. Traduzindo: um remédio que imita um hormônio do intestino, tira a fome e faz perder peso. É a caneta de aplicar uma vez por semana, que virou assunto em todo churrasco. Os dois princípios ativos mais usados são a semaglutida e a tirzepatida. Você usa algum deles, ou já pensou em usar?
Sobre a tirzepatida, existe um estudo piloto italiano de 2025, com grupo de comparação mas sem sorteio. Foram 83 homens com obesidade, testosterona baixa e disfunção erétil, todos com dieta e caminhada diária. Além disso, 28 usaram a tirzepatida, 30 ficaram só na dieta e 25 usaram testosterona pela pele. Em dois meses, a testosterona subiu nos três grupos. No da tirzepatida, terminou mais alta, e os recados do cérebro pro testículo também (La Vignera e colegas, 2025).
O limite é grande: quem definiu o grupo foi a preferência do paciente, as contraindicações e o bolso. E os recados do cérebro já partiam mais altos no grupo do remédio.
Para os outros remédios da classe, semaglutida entre eles, uma revisão sistemática de 2026 reuniu dez estudos, com 639 homens. Traduzindo: uma busca com método, não só o estudo que agrada. A testosterona total subiu de forma consistente, principalmente em homens com obesidade, diabetes tipo 2 ou testosterona baixa de causa metabólica. E os recados do cérebro, que têm nome, LH e FSH, ficaram preservados ou subiram (Deameh e colegas, 2026).
Agora, o detalhe que muda tudo. Um ensaio deu dulaglutida, outro remédio da classe, a 24 homens saudáveis e de peso normal. Em quatro semanas, nada mudou em testosterona, LH, FSH ou sêmen em comparação com placebo (Lengsfeld e colegas, 2024). Em homem saudável, os estudos não mostram esse efeito.
Por isso não é a caneta. É o seu corpo, quando a gordura sai.
O motor voltou a funcionar. Não entrou combustível de fora.
Repor ou emagrecer: e se você quer ter filho?
Repor sobe mais o número. E cobra na fertilidade.
“Doutor, usei testosterona e o exame veio zerado.” É uma frase que eu escuto no consultório. Zerado não é o hormônio. É o exame do sêmen.
O nome disso é azoospermia. Traduzindo: nenhum espermatozoide no espermograma. Você sabia disso antes de começar?
Quando a testosterona vem de fora, o cérebro entende que já tem de sobra e para de mandar o recado. Sem recado, o testículo para de fabricar o hormônio dele. E pode parar de fabricar espermatozoide. Por isso a diretriz europeia recomenda não usar reposição no homem que deseja ser pai. A americana diz o mesmo pro homem que está tentando ter filho (EAU, 2026; AUA, 2018, validada em 2024).
Um ensaio randomizado pôs as duas coisas lado a lado. Traduzindo: quem decide o grupo é o sorteio, não o médico nem o paciente. Foram 25 homens com diabetes tipo 2, obesidade e testosterona baixa, por 24 semanas: 12 repuseram testosterona injetável de longa duração e 13 usaram semaglutida semanal (Gregorič e colegas, 2025).
Reposição e caneta, lado a lado, em 24 semanas.
| O que foi medido | Reposição de testosterona (12 homens) | Semaglutida semanal (13 homens) |
|---|---|---|
| Testosterona total | Subiu 6,9 nmol/L (cerca de 200 ng/dL) | Subiu 1,6 nmol/L (cerca de 46 ng/dL) e terminou abaixo do normal |
| Comando do cérebro (LH e FSH) | Caiu | Ficou preservado |
| Espermograma | Concentração de espermatozoides caiu 67% | Formato dos espermatozoides melhorou, de 2% pra 4% |
| Ereção (questionário IIEF) | Melhorou | Sem melhora significativa |
| Peso | Variação menor | Queda maior, cerca de 6 kg |
Fonte: Gregorič e colegas, 2025. Aumentos em mediana.
O limite: são 25 homens, todos com diabetes, e todo mundo sabia o que tava usando. E na comparação direta entre os dois grupos, a diferença no questionário de ereção não foi significativa.

Se você quer ter filho, a ordem das decisões muda.
A caneta piora a ereção?
Dois estudos grandes, duas respostas opostas.
Circula por aí que a caneta derruba a ereção. A origem são dois estudos de coorte retrospectiva, da mesma rede de prontuários eletrônicos. Traduzindo: ninguém foi sorteado; os autores olharam pra trás, em registros de quem já usava.
O primeiro olhou homens com diabetes tipo 2 e comparou a tirzepatida com três outros remédios de diabetes. O risco de disfunção erétil foi de 30% a 45% menor com a tirzepatida (Cowart e colegas, 2025).
O segundo olhou 3.094 homens de 18 a 50 anos, com obesidade e sem diabetes, que receberam semaglutida, comparados com outros 3.094 que nunca receberam. A disfunção erétil apareceu 4,5 vezes mais em quem usou. Em número absoluto: 1,47% contra 0,32% dos homens (Able e colegas, 2025).
Mas veja como eu leio isso. As populações são diferentes e os comparadores também. E quem começa a caneta passa a ir mais ao médico. Quem vai mais ao médico recebe mais diagnóstico, inclusive de um problema que já existia. Isso tem nome: viés de detecção. Traduzindo: quem procura mais, acha mais. É o homem que faz o primeiro check-up aos 50 e sai com três diagnósticos. Ele não adoeceu naquele dia.
Na minha leitura, um aumento de 4,5 vezes é grande demais pra ser efeito do remédio. O que dá pra afirmar hoje: não dá pra dizer que a caneta piora a ereção. Nem que melhora, por conta própria.
Se a ereção já é uma queixa, o guia sobre disfunção erétil explica as causas, e o Doppler peniano é o exame que avalia a circulação.
Estudo que não sorteia não prova causa.
Testosterona baixa: o que muda na sua consulta
Quem escolhe a ordem é você.
Três coisas mudam na conversa com o seu médico:
- Medir direito. Testosterona colhida de manhã e repetida em outro dia, antes de qualquer decisão. É o que as diretrizes americana e europeia pedem; a europeia pede também jejum (AUA, 2018, validada em 2024; EAU, 2026).
- Dizer se quer filho, agora ou no futuro. A reposição desliga o recado do cérebro.
- Se você tá acima do peso, emagrecer entra primeiro na conversa. A diretriz europeia põe a perda de peso antes da reposição (EAU, 2026).

Só que emagrecer tem duas letras miúdas.
A primeira: o ganho depende de o peso ficar fora. A diretriz europeia registra que, com dieta e exercício, de 60% a 86% do peso perdido volta em três anos (EAU, 2026). Na minha leitura, se o peso volta, o hormônio tende a cair de novo.
A segunda: com dieta e exercício, o ganho na testosterona costuma ser pequeno, de 1 a 2 nmol/L, perto de 30 a 60 ng/dL (EAU, 2026). Em muitos homens, não basta sozinho pra normalizar o exame.
Por isso parar ou continuar o remédio, e repor ou não repor, é decisão de consulta, caso a caso. Os estudos da caneta ainda são pequenos e curtos, e nenhum mediu gravidez. Ela não é tratamento de testosterona baixa nem de fertilidade.
Repor sobe o número. Emagrecer religa o motor.
Quando procurar avaliação
- Cansaço e desejo baixo que não passam.
- Exame de testosterona baixo ou no limite, antes de começar qualquer hormônio.
- Você usa ou já usou testosterona e quer ter filho.
- Você tá na caneta e notou mudança no desejo ou na ereção.
- Espermograma alterado.
Perguntas frequentes
A caneta de emagrecer aumenta a testosterona?
No homem acima do peso ou com testosterona baixa de causa metabólica, os estudos mostram aumento da testosterona total, com o comando do cérebro preservado. Em homem saudável e no peso, os estudos não mostram esse efeito. E a caneta não tem indicação pra tratar testosterona baixa.
Reposição de testosterona deixa o homem infértil?
A testosterona de fora desliga o recado do cérebro e pode zerar o espermograma. As diretrizes recomendam não usar reposição em quem quer ser pai. Se você já usa e quer ter filho, não pare por conta própria: converse com o urologista.
Emagrecer aumenta a testosterona?
Aumenta, mas pouco: com dieta e exercício, o ganho costuma ser de 1 a 2 nmol/L, e depende de o peso ficar fora (EAU, 2026).
Testosterona baixa precisa sempre de reposição?
Não. No homem acima do peso, a diretriz europeia põe a perda de peso e a mudança de estilo de vida antes da reposição. A decisão é caso a caso, na consulta.
A caneta de emagrecer causa impotência?
Não dá pra afirmar. Dois estudos de prontuário deram respostas opostas, e nenhum sorteou quem usava o remédio. Hoje não dá pra dizer que a caneta piora a ereção, nem que melhora por conta própria.
Referências
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health, capítulo 3: Male Hypogonadism. Edição 2026.
- Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and management of testosterone deficiency: AUA guideline. J Urol, 2018;200:423. Validade confirmada em 2024.
- La Vignera S, Cannarella R, Garofalo V, et al. Short-term impact of tirzepatide on metabolic hypogonadism and body composition in patients with obesity: a controlled pilot study. Reprod Biol Endocrinol, 2025;23(1):92. doi:10.1186/s12958-025-01425-9
- Deameh MG, Ramez M, Rowaiee R, et al. Effects of glucagon-like peptide-1 receptor agonists on male reproductive hormones, semen parameters, and metabolic outcomes: a systematic review. J Sex Med, 2026;23(2). doi:10.1093/jsxmed/qdaf381
- Lengsfeld S, Probst L, Emara Y, et al. Effects of the glucagon-like peptide-1 receptor agonist dulaglutide on sexuality in healthy men: a randomised, double-blind, placebo-controlled crossover study. EBioMedicine, 2024;107:105284. doi:10.1016/j.ebiom.2024.105284
- Gregorič N, Šikonja J, Janež A, Jensterle M. Semaglutide improved sperm morphology in obese men with type 2 diabetes mellitus and functional hypogonadism. Diabetes Obes Metab, 2025;27(2):519-528. doi:10.1111/dom.16042
- Cowart K, Murphy C, Carris N. Association of tirzepatide with erectile dysfunction in people with type 2 diabetes. J Diabetes Complications, 2025;39(10):109116. doi:10.1016/j.jdiacomp.2025.109116
- Able C, Liao B, Saffati G, et al. Prescribing semaglutide for weight loss in non-diabetic, obese patients is associated with an increased risk of erectile dysfunction: a TriNetX database study. Int J Impot Res, 2025;37(4):315-319. doi:10.1038/s41443-024-00895-6
Este conteúdo não substitui consulta médica.
