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Tomo remédio para hiperplasia prostática benigna e não melhorei. E agora?
Próstata & HPB

Tomo remédio para hiperplasia prostática benigna e não melhorei. E agora?

Dr. Thiago Tagliari · Urologista · Catanduva/SP CRM-SP 152167 | RQE 72006 Atualizado em 12 de outubro de 2026

Se você toma remédio para hiperplasia prostática benigna e ainda levanta de madrugada, o mais provável não é que o comprimido parou de funcionar. Na maioria das vezes, quem parou foi o acompanhamento. E existem sinais objetivos de que o comprimido já não basta.

Resumo rápido

  • Metade dos homens para o remédio da próstata em cerca de cinco meses, e a maioria some do acompanhamento.
  • O remédio que relaxa a próstata mexe na ejaculação, não no desejo nem na ereção. E dá pra ajustar.
  • Infecção que volta, pedra na bexiga, sangue na urina, rim sofrendo ou precisar de sonda: sinais de que o comprimido não basta.
  • Na cirurgia, problema novo de ereção é raro. O que mais muda é a ejaculação.

O que o remédio para hiperplasia prostática benigna faz (e o que não faz)

O comprimido melhora a passagem. Não tira o que está apertando.

São dois grupos principais: o alfabloqueador e o inibidor da 5-alfa-redutase. Traduzindo: um relaxa a passagem da urina, o outro encolhe a próstata devagar. O primeiro costuma mostrar efeito em até quatro semanas. O segundo leva de três a seis meses (AUA, 2026).

Só que nenhum dos dois tira o que está apertando o canal. Eles aliviam.

E alívio só dura enquanto você toma.

Ilustração de como age o remédio para hiperplasia prostática benigna: um grupo relaxa o canal da urina e o outro diminui a próstata

O remédio parou de funcionar? Parou de ser tomado

A maioria dos homens acha que o comprimido perdeu o efeito. Os estudos mostram outra coisa.

Um estudo no Japão acompanhou 2.295 homens, em 30 hospitais, depois que eles começaram o remédio da próstata. Metade já tinha parado em cerca de cinco meses (mediana de 154 dias). E, entre os que pararam, sete em cada dez simplesmente sumiram do acompanhamento (Kamoto e Tsukino, 2025).

Uma ressalva honesta: parar não é o mesmo que falhar. No mesmo estudo, cerca de um em cada dez parou porque melhorou.

Agora imagina um homem de 60 anos. Começa o comprimido e em duas semanas o jato melhora. No quarto mês, esquece de comprar uma caixa. Nada acontece. No quinto, esquece outra. Dois anos depois, levanta quatro vezes por noite e conclui que o remédio parou de funcionar. Quem falhou não foi o comprimido. Foi o acompanhamento.

Parar com o médico é uma coisa. Parar na gaveta é outra.

O efeito na vida sexual que quase ninguém conta pro médico

Tem um motivo pra largar o remédio que quase nenhum homem conta. E ele não tem nada a ver com o xixi.

Antes, uma separação que muda tudo: desejo, ereção, ejaculação e orgasmo são quatro coisas diferentes. O remédio pode mexer em uma e deixar as outras em paz.

Com o alfabloqueador, a queda de desejo e o problema de ereção aparecem em frequência parecida com a do placebo (Giuliano, 2006). O que ele mexe é a ejaculação. Com tansulosina e silodosina, a ejaculação alterada aparece em 3 a 10 de cada 100 homens; com alfuzosina, num ensaio comparativo, não apareceu (AUA, 2026; Manohar e colegas, 2017).

E aqui tem um detalhe que quase ninguém sabe. Muita gente chama isso de ejaculação retrógrada. Com a tansulosina, os estudos apontam outra coisa: falha de emissão. Traduzindo: o sêmen não volta pra bexiga, ele quase não é liberado. O orgasmo vem, e sai pouco ou nada (Giuliano, 2006).

O remédio que encolhe a próstata pode mexer nas quatro coisas, mas em poucos homens. Com finasterida na dose usada pra próstata, os efeitos sexuais ficaram entre 2 e 7 em cada 100 homens, conforme o tipo. Num estudo de quatro anos, até 15 em cada 100 relataram algum efeito sexual: quanto mais tempo de uso, mais chance de aparecer (Samplaski e Nangia, 2015).

Então, se aconteceu com você, não é coisa da sua cabeça. Você comentou com o seu médico? Dá pra ajustar o tratamento.

Largar calado é que não resolve.

O filósofo Epicteto abre o seu manual separando o que depende de nós do que não depende (Encheirídion, cap. 1). Envelhecer não depende de você. Tratar, depende.

Quando o comprimido já não basta

A próstata não espera você decidir.

O nome técnico é hiperplasia prostática benigna. Traduzindo: a próstata cresceu por dentro e apertou o canal da urina. É o jato fraco no banheiro do restaurante, com fila atrás. Quanto tempo você fica lá?

Pra quem toma o remédio direitinho e mesmo assim não melhorou, a diretriz americana lista as situações em que vale considerar um procedimento (AUA, 2026):

  • o sintoma continua atrapalhando a vida, mesmo com o tratamento certo;
  • infecção urinária que volta;
  • pedra na bexiga que se repete;
  • sangue na urina causado pela próstata, depois de descartadas outras causas;
  • rim sofrendo por causa da obstrução;
  • não conseguir urinar e precisar de sonda.

Um cuidado: sobrar um pouco de urina na bexiga, sozinho, não é motivo pra operar.

E o tamanho da próstata? Ajuda a escolher a técnica, não a hora. Na minha prática, olho três coisas: o quanto o sintoma atrapalha, quanto sobra na bexiga depois de urinar e como está o rim. Se você quer entender a doença desde o começo, o guia completo de próstata aumentada explica sintomas e diagnóstico.

O remédio controla. Não resolve.

Se for cirurgia: vou ficar impotente ou de fralda?

Não é a cirurgia que seu pai fez.

Hoje a cirurgia pra próstata aumentada é feita por dentro do canal, sem cortes na pele. Um dos nomes é enucleação da próstata. Traduzindo: tira por dentro o miolo que aperta o canal, sem cortar por fora. E aí, qual é o seu medo de verdade: ereção ou fralda?

  • Ereção: problema novo e duradouro é raro quando o procedimento é bem executado (AUA, 2026).
  • Escape de urina: pode acontecer, e o risco muda conforme a técnica. Pergunte o número a quem vai te operar. Se acontecer, há tratamento para a incontinência depois da cirurgia de próstata.
  • Ejaculação: é o preço mais comum. Nas cirurgias que desobstruem a próstata, de metade a nove em cada dez homens passam a ejacular pra dentro da bexiga, e geralmente é permanente (AUA, 2026; Marra e colegas, 2016).

O orgasmo, na maioria, continua. O que muda é o sêmen, que vai pra bexiga e sai depois, na urina. O tema ainda é pouco estudado, mas é o que os dados disponíveis mostram (AUA, 2026).

Existem técnicas feitas pra preservar a ejaculação. Poupar a região perto de onde o sêmen sai reduziu a alteração de cerca de 70 para perto de 20 em cada 100 homens, ainda sem dados longos de durabilidade. E existem procedimentos de consultório, que não removem tecido, com alteração em menos de 10 em cada 100. O custo é que mais gente precisa refazer (AUA, 2026).

O que cada caminho troca. Nenhuma linha é “a melhor”: cada uma troca uma coisa por outra.

CaminhoEfeito na ejaculaçãoPrecisar refazer
Remédio que relaxa (tansulosina, silodosina)Alterada em 3 a 10 de cada 100Não se aplica: é uso contínuo
Remédio que encolhe (finasterida na dose da próstata)Cerca de 2 em cada 100Não se aplica: é uso contínuo
Cirurgias que desobstruem (ressecção, vaporização, enucleação)De 50 a 90 em cada 100, geralmente permanenteRessecção e vaporização: cerca de 8 em cada 100 em 4 anos. Enucleação: o menor entre as técnicas
Procedimentos de consultório que não removem tecidoMenos de 10 em cada 100Cerca de 16 em cada 100 em 4 anos

Fontes: AUA, 2026; Samplaski e Nangia, 2015.

Ilustração da cirurgia sem cortes para hiperplasia prostática benigna, com o canal da urina liberado por dentro

Eu opero próstata. E justamente por isso tenho que te contar: se ejacular é prioridade pra você, isso muda a conversa. Pra ver como cada técnica funciona, leia sobre a cirurgia de próstata aumentada.

Quem opera tem obrigação de dizer isso antes.

O que levar pra consulta

A melhor consulta é a que não deixa surpresa pra depois.

  • Há quanto tempo você toma o remédio, e qual é.
  • Se parou: quando e por quê. Inclusive se foi por causa da ejaculação.
  • Quantas vezes levanta por noite. Anote três noites seguidas, do jeito que explico no artigo sobre diário miccional.
  • Os exames que já fez. A avaliação costuma incluir questionário de sintomas e exame de urina e, conforme o caso, PSA, medida do fluxo, quanto sobra na bexiga e ultrassom (AUA, 2026).

A diretriz americana recomenda reavaliar em até seis meses depois de começar o tratamento (AUA, 2026). Lembra dos cinco meses? Metade dos homens para antes mesmo dessa consulta.

Você não precisa confiar em mim agora. Precisa entender o que vai acontecer, e aí você decide.

Minha função é zero surpresa.

Quando procurar avaliação

  • Você toma o remédio há meses e ainda levanta várias vezes por noite.
  • Parou o remédio por conta própria e os sintomas voltaram.
  • Notou mudança na ejaculação e não contou pra ninguém.
  • Teve infecção urinária de novo, sangue na urina ou pedra na bexiga.
  • No mesmo dia: se não conseguir urinar, procure um pronto-atendimento.

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Perguntas frequentes

Posso parar o remédio da próstata por conta própria?

Não é o recomendado. Às vezes dá pra tirar um remédio, mas isso se decide junto com o urologista, depois de reavaliar sintomas e exames. Quem para sozinho costuma ver os sintomas voltarem devagar, sem ligar uma coisa à outra.

O remédio da próstata causa impotência?

Com o alfabloqueador, a frequência de problema de ereção fica parecida com a do placebo; o que ele mexe é a ejaculação. A finasterida pode afetar desejo, ereção e ejaculação, mas em poucos homens: entre 2 e 7 em cada 100 num estudo com a dose usada pra próstata.

A tansulosina causa ejaculação retrógrada?

Os estudos sugerem que não é bem retrógrada. Com a tansulosina, o sêmen quase não é liberado, em vez de voltar pra bexiga. Se isso incomoda, converse com o seu médico: dá pra ajustar o tratamento.

A cirurgia de próstata aumentada deixa impotente?

Problema novo e duradouro de ereção é raro quando o procedimento é bem executado. O efeito sexual mais comum é na ejaculação, que passa a ir pra bexiga em boa parte dos homens.

Depois da cirurgia eu continuo tendo orgasmo?

Na maioria dos homens, sim. Orgasmo e ejaculação são coisas diferentes. O tema ainda é pouco estudado, mas os dados disponíveis mostram que a maioria mantém o orgasmo mesmo quando a ejaculação muda.

Referências

  1. American Urological Association. Management of Lower Urinary Tract Symptoms Attributed to Benign Prostatic Hyperplasia: AUA Guideline (2026). J Urol, 2026.
  2. Kamoto T, Tsukino H. Real-world adherence and persistence with medication among men with lower urinary tract symptoms owing to benign prostatic hyperplasia in Japan: a clinical prospective study. World J Urol, 2025;43(1):377. doi:10.1007/s00345-025-05752-9
  3. Manohar CMS, Nagabhushana M, Karthikeyan VS, et al. Safety and efficacy of tamsulosin, alfuzosin or silodosin as monotherapy for LUTS in BPH: a double-blind randomized trial. Cent European J Urol, 2017;70(2):148-153. doi:10.5173/ceju.2017.924
  4. Marra G, Sturch P, Oderda M, et al. Systematic review of lower urinary tract symptoms/benign prostatic hyperplasia surgical treatments on men’s ejaculatory function: time for a bespoke approach? Int J Urol, 2016;23(1):22-35. doi:10.1111/iju.12866
  5. Samplaski MK, Nangia AK. Adverse effects of common medications on male fertility. Nat Rev Urol, 2015;12(7):401-413. doi:10.1038/nrurol.2015.145
  6. Giuliano F. Impact of medical treatments for benign prostatic hyperplasia on sexual function. BJU Int, 2006;97 Suppl 2:34-38. doi:10.1111/j.1464-410X.2006.06104.x

Este conteúdo não substitui consulta médica.

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